O pão merece-me uma particular atenção, não fosse neto e filho de industriais de padaria.
A primeira indústria de panificação da freguesia foi criada por João Gonçalves de Sousa, natural de Angeja, concelho de Albergaria-a-Velha. Apareceu por cá como apontador ou encarregado na construção da Avenida António Coelho Moreira. Aqui conheceu a que veio a ser a sua esposa, Maria Francisca da Silva, oriunda de Braga, e do seu casamento nasceram quatro filhos: - António, Maria, Gil e César. Maria Francisca da Silva, que nada sabia de panificação mas sim de agricultura, ficou conhecida como sendo a “Braguesa dos Velhotes”. Uma pequena padaria, do tipo artesanal, existiu numa parte do armazém de vinhos do Senhor Acácio e foi depois transferida, a título provisório, para o edifício que se situava (e se situa ainda mas modificado) defronte do que foi projectado e construído com todas as características para fabrico de pão. A criação de “Velhotes” foi da autoria de João de Sousa. Desconheço a razão (porque nunca a minha curiosidade me levou a inteirar-me disso) pela qual foi dada tal designação ao pão meio açucarado que semanalmente, e em especial por altura da Festa em Honra do Senhor dos Aflitos, no primeiro domingo do mês de Julho, se fabricava na padaria e chamava a Valadares muitos forasteiros por ocasião dessa festa. Antes de novamente abordar o assunto dos “Velhotes” cumpre-me fazer algumas considerações sobre o fabrico do pão. Dantes levantava-se o padeiro à meia-noite, hoje faz-se pão “À LA MINUTE”... Evidentemente que a qualidade sofreu alterações que, em vez de ser para melhor, piorou. A levedura da massa tem o seu tempo de duração e quando faz frio o período da levedação tem de ser mais prolongado ou reforçada a dose de fermento. Por outro lado, fazendo calor excessivo, a manipulação da massa tem de ser mais apressada. A cozedura do pão no forno aquecido a lenha empresta um paladar mais agradável, o que não acontece com o aquecimento do forno a gás ou a electricidade. O pão que actualmente aparece, o chamado “pão quente”, só é bom quando mesmo quente. Há regiões a norte ou a sul do País em que se prima pelo fabrico tradicional amigo, e os resultados são de sobejo conhecidos. Falo por mim! Outra modalidade de pão é fabricada com farinha de milho. Os processos de manipular são diferentes: - usam-se os iscos naturais (restos de massa anterior fermentada) e água muito quente para escaldar a farinha, adicionando-se outra espécie de farinha para ligação. No tempo em que a farinha provinha de milho novo, sobretudo da nossa zona que produzia esse cereal em grandes quantidades, o pão tornava-se macio e muito apetitoso. Quando o milho era originário das nossas colónias africanas e transportado a granel nos porões dos navios mal arejados, esse cereal adquiria um cheiro desagradável que se ”misturava” com o paladar, e o pão tornava-se “escardacento”, isto é, esboroava-se muito facilmente. Voltando aos “Velhotes”. Semanalmente, como atrás digo, fabricava-se este tipo de pão, feito de encomenda por quem depois o ia vender às pessoas que se mostravam interessadas, mas era por ocasião da Festa Grande de Valadares que o seu fabrico excedia todas as expectativas. Aprovisionava-se uma enorme quantidade de sacos de farinha e de ovos, e contratava-se pessoal extra. A festa durava três dias – sábado, domingo e segunda-feira – com apenas uma noitada de fogo de artifício, mas no ano em que o meu pai fez parte da Comissão de Festas, passaram (por motivo compreensível) a fazer-se duas noitadas de fogo. Os preparativos para o fabrico dos “Velhotes” começavam na quinta-feira antecedente, e na sexta-feira já havia “Velhotes” devidamente acondicionados em tabuleiros, que poderiam resolver uma situação de emergência. No sábado e domingo, dias principais, o pessoal não tinha quase tempo para comer e descansar, e a solução era recorrer ao armazenamento feito com antecedência. Depois de finda a sessão do fogo de artifício (antes havia duas sessões seguidas no sábado e depois passaram a ser feitas nas noites de sábado para domingo e de domingo para segunda-feira) os interessados na aquisição dos “Velhotes”, sem formação de fila como acontece actualmente, procuravam colocar-se na melhor posição junto dos balcões, acotovelando-se uns aos outros, para serem atendidos antes de se esgotar a fornada. Vendidas as fornadas mais recentes, a solução era a reserva de sexta-feira. Os “Velhotes” eram levados ao forno, e os clientes, não se apercebendo do truque, exclamavam: - “Estes é que são quentinhos”! Quem também fabricava pão a que davam igualmente o nome de “Velhotes” era o irmão da Braguesa, Manuel Silva, com padaria na Madalena, que antes fora empregado do seu cunhado João de Sousa, e, ainda, a senhora que era conhecida pela alcunha de “Tambora”. Mas os “Velhotes da Braguesa” tinham fama e eram preferidos. A fama ainda existe, passados muitos anos, mas a qualidade finou-se como aconteceu aos que foram seus criadores originais. E é pena, como alguém escreveu, que não eu, a respeito dos “Velhotes”. O segredo dos “Velhotes” não existe, ao contrário do que li num jornal diário há uns tempos atrás. Nesse jornal dizia-se que o segredo estava bem guardado em poder de Augusto Neves. O meu pai era César Augusto e não Neves; eu sou Neves mas não Augusto. Os jornalistas nem sempre acertam nas fontes a que acorrem, dando este resultado!
Gil Neves
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