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PÃO DOCE TRADICIONAL DE VALADARES
 
“OS VELHOTES DA BRAGUESA”, por Gil Neves, confrade de honra

Uma das primeiras padarias instalada na freguesia de Valadares, funcionando em pequena escala, foi fundada por João Gonçalves de Sousa,

natural de Angeja do concelho de Albergaria-a-Velha. João de Sousa chegou a Valadares, por volta de 1880, como apontador na

construção da Avenida António Coelho Moreira, e aqui conheceu Maria Francisca da Silva, natural de Braga, que veio a ser a sua esposa, e do seu casamento nasceram quatro filhos.

Quando foi construído o edifício, próximo da Igreja de Valadares, com as verdadeiras características de padaria em que o industrial interessado contribuiu, a expensas suas, na instalação da casa do forno, alpendre para arrecadação de lenhas, poço e apetrechamento para a extracção de água, canalizações, etc., foi introduzida no fabrico de pão de trigo uma modalidade de pão meio açucarado a que foi dada a denominação de “Os Velhotes da Braguesa”.

Os mais próximos descendentes vivos dos percursores desta indústria desconhecem a razão de ser adoptada tal denominação, sabendo apenas que Braguesa deriva de Braga, terra da naturalidade de Maria Francisca.

Este pão meio açucarado fabricava-se aos sábados por encomenda de meia dúzia de pessoas que depois faziam a venda aos habituais clientes.

Na confecção deste pão entravam como ingredientes: - farinha, água, açúcar, ovos, sal e levedura.

Os ovos provinham das muitas galinhas que se criavam (e que um dos filhos dos donos da casa apelidava de “fareleiras” porque a principal alimentação delas derivava do farelo extraído da peneiração da farinha de milho utilizada na padaria), e de couves migadas das que se

cultivavam no extenso quintal da propriedade.

Por altura da festa em honra do Senhor dos Aflitos o fabrico dos Velhotes passou a ser uma das atracções de forasteiros a Valadares.

Fazia-se o aprovisionamento de grandes quantidades de farinha e de ovos (para além dos já citados) e contratava-se pessoal de reforço que durante quatro dias, a contar da sexta-feira que antecedia a queima do fogo de artifício, quase não tinha tempo para descanso.

A partir já da dita sexta-feira acomodavam-se devidamente resguardados em tabuleiros os Velhotes que seriam postos à venda na hora de ponta, geralmente após o lançamento dos foguetes, e que previamente eram levados ao forno para aquecer.

Os clientes não se apercebiam deste truque e até exclamavam: - *“Estes é que são quentinhos!”.*

A afluência ao balcão era enorme e aguardava-se com paciência a vez de, cada um, ser atendido.

Alguns dos interessados na aquisição deste produto vinham providos de manteiga para no próprio arraial saborearem o seu paladar. Outros levavam-no para comer mais sossegadamente em casa.

A qualidade deste pão meio açucarado, primeiramente fabricado por João de Sousa e depois pelo seu filho César (o mais novo dos quatro filhos do casal que continuou com a exploração da padaria) desapareceu em certo grau devido não só ao processo de cozedura que era feita com o forno

aquecido a lenha de pinho ou de eucalipto, e também com o escasso tempo de levedação que a exigência do público torna impossível levar a efeito para não ter de esperar muito a ser atendido... para não falar de razões  que possam ter relação com outras causas!

A antiga qualidade da fabrico deste pão finou-se, como se finaram os seus percursores e também o seu filho César que lhes sucedeu, *restando agora a fama dos “Velhotes da Braguesa” que ainda perdura*

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