Podia começar a falar acerca da importância de Valadares na génese desse doce, que nos é tão querido, mas do qual, sabemos de facto tão pouco.
Desde já peço desculpa ao Sr. Gil, por dar a entender que o seu contributo é pouco relevante para o assunto, o que não é verdade, pois à falta de provas documentais, será a tradição oral a fundamentar as teses avançadas. Assim sendo, creio que se torna óbvio para todos, que eu, bem como qualquer historiador sério, só podemos afirmar peremptoriamente como verdade aquilo que for possível comprovar com documentos. Confesso, que desconheço, até à data, qualquer trabalho sério e fundamentado que verse sobre a origem do Velhote. O documento, é a base de qualquer explicação histórica, mas tem forçosamente que passar pelo apertado crivo crítico dos profissionais da Clio, este deve ser interrogado exaustivamente e sempre que possível, com distanciamento pessoal. Permitam-me apenas como exemplo, que partilhe convosco, uma bateria de questões possíveis de se colocarem a um documento, quando se pretende fazer a sua crítica: - Quem escreveu o documento? - Com que finalidade? - A soldo de quem? - Em que período foi escrito? - Qual o contexto da época? - Existem outros documentos semelhantes? Ou estamos perante um caso único? - É um original? Ou uma cópia posterior? - Se é uma cópia, conhecemos o original? Está de acordo com o mesmo ou foi alterada? É fácil de compreender, que estas questões não se aplicam a todos os documentos, e muitas outras há que poderiam ser levantadas. Temos ainda que ter em linha de conta, que não raras vezes, não nos será possível responder a todas as questões. Quanto maior for o grau de incerteza que o documento nos transmite, menor deve ser a nossa predisposição para sermos taxativos. Esta é a situação ideal, mas que não raras vezes é descorada e por alguns até evitada. Relembro, só como um caso entre muitos, o do mediático Código Da Vinci. Uma estória e não uma História bem contada, mas que se contenta com o aflorar de questões mais ou menos polémicas, mas sem nunca comprovar as hipóteses levantadas. Como resposta a tal inverdade foram escritas imensas obras que dão a conhecer a verdade histórica sobre a situação, mas que ficaram muito longe de serem best-sellers. O que afirmo para o badalado romance de Dan Brown é igualmente válido, numa escala bem mais micro, para muitas das coisas que se vão escrevendo e publicando por este país fora. Quando entramos no domínio da História Local, então estamos perante um campo em que toda a gente sente que tem legitimidade para escrever sobre o assunto. Espero não ser mal interpretado, pois admiro e louvo o trabalho de todos aqueles que são amadores, no seu sentido etimológico mais puro, os que amam. Tenho a felicidade de conhecer alguns dos investigadores da História Local de Gaia, historiadores e amadores. Quando souberam desta empresa que me foi proposta, imediatamente se prontificaram a partilhar qualquer informação que tivessem ou descobrissem nas suas pesquisas. Foi com este pano de fundo que recebi a minha primeira notícia escrita acerca dos Velhotes. Foi-me facultada pelo Dr. Maia Marques, prestigiado historiador e professor do ISMAI, que é também o progenitor do meu grande amigo Gonçalo, também ele historiador, já muito, respeitado no meio. A informação a que me refiro é uma notícia publicada no "Tripeiro" e que não é muito abonatória da causa valadarense. Como o segredo é a alma do negócio, não farei aqui hoje, qualquer referência em relação a essa notícia. Fiquei, recentemente, a saber que existem duas obras onde uma imagem que representa uma vendedora de velhotes, é indevidamente apropriada para a causa avintense (no que à génese do Velhote, diz respeito). A imagem foi publicada numa revista de 1883 e representa uma mulher que parece de facto ter a sua canastra cheia de velhotes, no entanto em lado nenhum é referida uma identificação concreta da origem da mulher. A legenda refere que é uma mulher dos arredores do Porto. Se o conteúdo da canastra parece-me ser um assunto pacífico, já a assunção de ser de Avintes ou qualquer outra freguesia merece um debate mais aturado. No entanto quer Joaquim Costa Gomes, um amigo e grande mestre, quer o, agora, Dr. José Vaz, não se fizeram rogados em recrutar para Avintes a referida vendedora de velhotes. Diga-se em abono da verdade da questão que o primeiro não é historiador de profissão e o segundo também não o era à data em que escreveu a obra em questão. Desde já, quero que fique bem marcado, que me recuso a escamotear ou embelezar os factos para ser agradável às gentes da minha terra. Prometo-vos o maior rigor possível na informação que vos transmitir e a preocupação com o desmontar de cenários idílicos mas não verdadeiros, sejam eles construídos por amigos ou por perfeitos desconhecidos. Se a História do velhote poderá pecar pela falta de fontes, já a História da sua confraria parece-me enfadar do mal contrário, ou seja, existe hoje em dia informação e documentação mais do que suficiente para poder escrever um texto bem fundamentado acerca desta organização. Permitam-me agora que partilhe convosco algumas reflexões que me têm acompanhado há já algum tempo. Justifica-se a existência de uma Confraria do Velhote? Estou certo que a esmagadora maioria dos valadarenses que fossem requeridos a pronunciarem-se, justificando a sua opção, responderia que sim, ainda que acrescente uma qualquer premissa que a seu ver precisa ainda de ser melhorada. Antes de avançar mais ideias acerca deste assunto, convém abrir um parêntesis para explicar o contexto geral da questão. Vi na televisão, há bem pouco tempo, que os Jesuítas de Santo Tirso têm agora também uma confraria. Num primeiro instante parece que estamos perante uma acção consertada de cariz proteccionista de comerciantes de um determinado produto. No entanto, pelos poucos casos que conheço de perto, estou convencido que não é esse o principal dínamo de tais iniciativas. O que motiva estes indivíduos, e de certa forma, o que justifica a proliferação de movimentos de confrades? Na minha modesta opinião, estamos perante uma resposta natural aos dias que vivemos. Numa altura, em que cada vez mais, se ouve falar em globalização, em comunidade europeia, onde a moeda nacional é já coisa de um passado distante, onde cada vez mais se pretende que todos conheçam o inglês, onde as novas gerações estão mais facilmente em contacto com alguém do outro lado do mundo do que com o vizinho, houve uma reacção natural a este atentado à nossa matriz cultural. As confrarias são normalmente muito marcadas por regionalismos camuflados por um produto (a broa de Avintes, o velhote de Valadares, as fogaças de Santa Maria da Feira, etc., etc., etc.). Não devemos pois estranhar, que nos dias que correm cada vez mais surjam iniciativas deste género. Somos por tradição bairristas e não há terra como a nossa. Num mundo, cada vez mais, estandardizado procuramos, com empenho e afinco, encontrar algo que nos devolva a diferença e a pretensão de sermos únicos. Não vejo nenhum mal neste desejo, nem pretendo rotular de "Velhos do Restelo", aqueles que tentam a todo o custo não serem tragados, pelos vorazes tempos que vivemos. Creio, que fica assim também justificada a necessidade de tantos estudos monográficos, inclusive o do Velhote e da sua confraria. Gostaria de deixar aqui um apelo, para que me façam chegar toda e qualquer informação que disponham sobre o assunto. Todos os contributos são válidos, relatos de pessoas mais antigas, notícias em jornais ou revistas, fotos recentes ou antigas, etc. Prometo dar sempre o devido crédito a qualquer colaboração que me chegue às mãos. Estou disponível ainda para eventuais trocas de ideias e sempre que possível a ir avançando com os meus progressos, através da imprensa local.
* Valadariadas de 2007 foram organizadas pela Confraria Gastronómica do Velhote
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