João Gonçalves de Sousa, natural de Angeja (lugar do Fontão) – Albergaria-a-Velha, veio para Valadares como encarregado ou apontador da construção da Avenida António Coelho Moreira....
Aqui conheceu Maria Francisca da Silva, nascida em Braga, e com ela veio a casar.
Do casamento houve quatro filhos, dos quais o último veio a ser o meu pai.
Na localidade do nascimento de João de Sousa havia, casa sim – casa sim, pequenas padarias artesanais, cujo pão era depois distribuído pelas freguesias circunvizinhas, e esse facto pude eu testemunhar em 1930 quando lá estive em repouso e convalescença de uma enfermidade, em casa de António Dias Mendonça, parente de João de Sousa e, consequentemente, do meu pai.
Não posso garantir se a primeira padaria fundada por João de Sousa, provisoriamente instalada no armazém de vinhos do Senhor Acácio (mais tarde armazém de Sá Dias & Filho), data desde logo que chegou a Valadares, em 1870. Mas pelos cálculos que fiz não andará longe disso.
Pouco tempo depois a pequena padaria artesanal passou, também a título provisório, para outro lugar, enquanto não era concluída a construção do edifício fronteiro com todas as características para o fabrico de pão.
Parte dessa construção, como seja: - a casa do forno, o alpendre para arrecadação de lenhas, poços (um teve de ser transferido para mais longe para não afectar o forno) com instalação de vários sistemas de captação de água, etc. etc., foi feita às custas de João de Sousa, pois era sua intenção adquirir o imóvel, se o seu falecimento não tivesse acontecido tão precocemente.
No fabrico de pão de trigo e de milho estava compreendido também, aos sábados, o de pão meio açucarado a que foi dada a designação de “Velhotes da Braguesa”, cuja razão desconheço porque a minha curiosidade nunca me levou a conhecê-la.
De Braguesa não tenho dúvidas. Era a naturalidade de Maria Francisca, vinda de Braga, e foi uma cortesia de seu marido ao adicionar a palavra designativa da proveniência da sua companheira ao pão meio doce em questão.
Maria Francisca nada sabia de panificação. Ela dedicava-se exclusivamente a trabalhos agrícolas, mas muito contribuiu para o engrandecimento da casa.
Era ela que se preocupava com a criação de dezenas de galinhas, as “fareleiras” como lhes chamava o seu filho António, por serem alimentadas à base de farelo extraído da peneiração da farinha de milho utilizada na padaria e das couves (produzidas no extenso terreno da casa) depois de migadas, e assim conseguir armazenar semanalmente as quantidades de ovos necessários para o fabrico dos “Velhotes”, e muito especialmente por ocasião das Festas em Honra ao Senhor dos Aflitos para adicionar às muitas dúzias que tinham de ser compradas.
Na altura destas festas fazia-se o aprovisionamento da farinha, além dos ovos, e contratava-se pessoal extra.
Os dias festivos eram três: - sábado, domingo e segunda-feira da primeira semana do mês de Julho, com duas sessões de fogo de artifício ao sábado. Mas no ano em que o meu pai fez parte da Comissão Organizadora da Festa, por razões óbvias, passou a haver dois dias de fogo de artifício.
Era sabido que após terminadas as sessões de fogo de artifício, a afluência aos balcões da padaria seria enorme e impaciente.
Por isso, para que não houvesse espera de atendimento para outra fornada, esgotados os Velhotes do dia ou do momento acorria-se a uma reserva feita de véspera devidamente acondicionada.
Os Velhotes eram levados ao forno para aquecer, e os clientes, não se apercebendo do truque, exclamavam: - “Estes é que são quentinhos!”
Desde a criação por João Gonçalves de Sousa e da sua continuação pelo seu filho César, este pão açucarado tornou-se famoso e muito apreciado pela sua qualidade, não só pelos residentes mas também pelos milhares de forasteiros que de longe vinham a Valadares, aquando das referidas festas, para o degustar.
O pão doce que actualmente se fabrica não se compara em qualidade com o que era feito no tempo de César de Sousa ou do seu pai, nem com o que se confeccionava na padaria (Rego da Água - Madalena) do seu tio Manuel Silva, cunhado e ex-empregado de João de Sousa, nem tampouco com o da Micas Tambora, em escala muito reduzida, no lugar do Outão.
Todo o pão, seja doce ou normal, tem o seu tempo de levedação, e não pode ser preparado à semelhança do chamado “pão quente”.
A impaciência do cliente não justifica o fabrico acelerado do pão.
A cozedura que em tempo era feita a lenha, carqueja e rama de pinheiro ou de eucalipto dava um paladar agradável e diferente da utilização do gás ou da electricidade, e com isto tudo quero dizer que a qualidade do pão doce que passou a ser tradicional de Valadares se finou, assim como se finaram os seus criadores.
Resta-lhe apenas a fama, e desta se serviu alguém para instituir a Confraria Gastronómica do Velhote, que tem o dever de pugnar para que o produto seja levado como bom a todo o lado aonde se faça representar.
* Um apontamento do confrade de honra, Gil Neves |