Vou mais uma vez escrever sobre este pão meio açucarado que, por alturas do ano de 1880, foi criado em Valadares, e com este artigo ponho “ponto final” sobre o assunto. ...
Tenho em meu poder dois artigos publicados neste jornal no mês de Dezembro de 2002 e em Janeiro de 2003, respectivamente da autoria de Maria Joaquina M. Guedes e de Rui de Castro, com a rubrica de “Falando de Velhotes”, cujos textos mereceram a minha inteira concordância.
O mesmo não sucedeu quando foi criada a Confraria do Velhote; outra, na cerimónia do acto de posse dos Órgãos Sociais para o ano de 2006, ocorrida em 10.02.2006, e ainda outra quando na televisão se fez uma reportagem a propósito desta mesma Confraria.
No primeiro caso, quando soube pelo Jornal de Notícias da criação em Valadares da Confraria, fiquei surpreendido e um tanto agastado por não ter sido ouvido na qualidade de descendente directo de quem começou a fabricar os “Velhotes”, e de algumas inverdades contidas na publicação da notícia. E se por um lado me julguei ignorado pela omissão, por outro lado senti-me regozijado e feliz por se ter escolhido ou recordado um item que tem muito de ligação com os meus antigos familiares, e também por eu ter sido compensado com a entronização de Confrade Honorário.
Aquando da cerimónia do acto de posse dos dirigentes da Confraria, em Fevereiro de 2006, um Confrade convidado mostrou-se “entendido” na história do Velhote e disse que ela advém de Avintes, no ano de 1911, e isso me desgostou a ponto de ter pensado em me desligar da Confraria.
Mais recentemente foi a reportagem televisiva, em que não pude escutar senão a sua parte final, mas o bastante para verificar que essa reportagem não correspondeu verdadeiramente a alguns aspectos do fabrico do Velhote, que se tornou “pão doce tradicional de Valadares”, pois se limitou a descrever o processo actual do seu fabrico e pouco mais.
Sobre os “Velhotes da Braguesa” fiz três séries de súmulas com a sua história, uma delas a pedido da própria Confraria, mas parece que os seus destinatários não lhes deram a devida atenção, e para que não restem dúvidas vou recapitular sobre o que me foi dito, oportunamente, pela minha avó paterna e pelo meu pai, e pelo o que pude presenciar a partir de 1929, data em que a residência dos meus pais se mudou do lugar de Penouços para as imediações do largo da Igreja.
O meu avô, João Gonçalves de Sousa, por volta de 1880 veio do lugar do Fontão (Angeja, do concelho de Albergaria-a-Velha), terra da sua naturalidade, para exercer funções de apontador ou encarregado na construção da Avenida António Coelho Moreira, e trouxe também a ideia de montar em Valadares uma padaria de fabrico de pão de trigo.
Aqui em Valadares conheceu Maria Francisca da Silva, natural de Braga, e com ela veio a casar, tendo do matrimónio nascido quatro filhos: - António, Maria, Gil e César.
Maria Francisca da Silva nada sabia de panificação. Eram os trabalhos agrícolas que lhe absorviam toda a sua actividade.
A primeira padaria, de tipo artesanal, foi instalada por seu marido numa dependência do antigo armazém de vinhos do Senhor Acácio, e mais tarde, a título provisório enquanto não se construía o edifício com as verdadeiras características de padaria em que o industrial interessado contribuiu, a expensas suas, na instalação da casa do forno, alpendre para arrecadação de lenhas, poço e apetrechamento para a extracção de água, canalizações e outros, foi transferida para um prédio que lhe estava próximo.
Nas novas instalações da padaria foi introduzida no fabrico de pão de trigo a modalidade de pão meio açucarado que, muito mais tarde, se tornou “pão doce tradicional de Valadares” e deu azo à criação da Confraria Gastronómica do Velhote.
A designação de Velhotes é para mim desconhecida porque a minha curiosidade nunca me levou a conhecê-la, mas é natural que ela conste de algumas publicações escritas, mas o certo é que “Os Velhotes da Braguesa” tiveram início, aproximadamente, em 1880, e a denominação “da Braguesa” resultou de a minha avó paterna ser natural de Braga e de o seu marido, por cortesia, lhe ter aposto esse topónimo.
Este pão fabricava-se aos sábados por encomenda de meia dúzia de pessoas que depois faziam a venda aos habituais clientes. Na sua confecção entravam como ingredientes: - farinha, água, açúcar, ovos, sal e levedura.
Pela ocasião da romaria do Senhor da Pedra também se fabricavam Velhotes para ali serem vendidos, mas era durante os festejos em Honra do Senhor dos Aflitos que o seu fabrico alcançava a sua maior amplitude.
A sua fama, pela qualidade de fabrico, era um dos atractivos da vinda de forasteiros a Valadares em todos os dias festivos, para também presenciarem o fogo de artifício e a atraente procissão com os seus vistosos andores e inúmeros figurantes.
Como apreciadores dos “Velhotes” muitas pessoas já se faziam acompanhar de manteiga para com ela saborearem esta especialidade de pão.
E por falar na fama adquirida vou recordar o que aconteceu numa deslocação que fizemos, eu e a minha irmã Maria Rosa, à romaria do Senhor da Pedra.
Parámos diante de uma vendedora de “Velhotes” que, por força, nos queria impingir o seu produto de venda como sendo “Velhotes da Braguesa”, mas nesse dia não os havia lá, e a vendedora, quando nos identificámos, não se cansou de nos pedir desculpas.
Dito tudo isto, vou pormenorizar os trabalhos que se faziam por ocasião da centenária Festa em Honra ao Senhor dos Aflitos, sempre realizada a coincidir com o primeiro domingo do mês de Julho.
Fazia-se o aprovisionamento de grandes quantidades de farinha, de açúcar e de ovos (muitos destes provenientes de dezenas de galinhas de criação caseira) e contratava-se pessoal de reforço que durante quatro dias, a contar da sexta-feira que antecedia a queima do fogo de artifício, quase não tinha tempo para descanso.
A partir já da dita sexta-feira acomodavam-se devidamente resguardados em tabuleiros os Velhotes que seriam postos à venda na hora de ponta, geralmente após o lançamento dos foguetes, e que previamente eram levados ao forno para aquecer.
Os clientes não se apercebiam deste truque e até exclamavam: - “Estes é que são quentinhos!”
A afluência ao balcão era enorme e aguardava-se com paciência a vez de, cada um, ser atendido. (Presentemente este atendimento faz-se de forma ordeira e concertada, a única melhoria que se nota para se adquirir o produto em causa).
Em todo o pão que se fabrica tem de ser respeitado um certo tempo de levedação, e a impaciência das pessoas que aguardam ser servidas com prontidão não pode nem deve alterar o tempo de fermentação da massa e, quando assim acontece, a
qualidade do produto sofre as consequências dessa curta ou insuficiente margem de levedação.
O processo de cozedura, como era feito antigamente com o forno aquecido a lenha de pinho, e depois com chamiça, carqueja ou rama de eucalipto, dava um sabor ao pão muito diferente e mais agradável do que aquele que resulta com o aquecimento do forno a gás ou a electricidade.
E vou recordar que ainda conheci o meu avô quando ele se encontrava num estado terminal de saúde. Nesse tempo a “amassadoria” era feita braçalmente numa alongada masseira de madeira, mas já com a exploração da padaria a cargo do meu pai, o filho mais novo do casal, esse arcaico sistema foi substituído por uma amassadeira mecânica que possibilitou a maneira mais facilitada e mais rápida de se misturarem as matérias-primas de que o produto se compõe.
A massa era retida por algum tempo na amassadeira para levedar, e depois era seccionada em impelos, em forma de bola, para serem introduzidos na máquina divisora que os cortava em trinta unidades, duas das quais unidas e enroladas para depois serem alongadas e dobradas a meio, de forma a poderem ser tendidas nos tabuleiros, em número de quatro a formar cada uma das pasadas.
Enquanto o forno era aquecido até se notar o grau de calor adequado, sem necessidade de qualquer termómetro, bastando apenas o reconhecimento pela prática do forneiro ao observar a coloração que se formava nos lares e tijolos do forno, as pasadas permaneciam mais algum tempo a levedar nos tabuleiros sobrepostos a aguardar que o forno ficasse rasourado e limpo das cinzas para serem levadas à cozedura.
A antiga qualidade do fabrico deste pão, que se tornou “pão doce tradicional de Valadares”, finou-se, como se finaram os seus percursores e também o seu filho César que lhes sucedeu, restando apenas a fama dos “Velhotes da Braguesa”, que ainda perdura!
E a concluir, como Ponto Final sobre este assunto, quero dizer também ao Senhor Dr. Luís Alves dos Reis a propósito do seu artigo publicado no nº. 88 do jornal Valadares & a Cidade em Foco”, quando diz “que o meu contributo é pouco relevante para o assunto, pois à falta de provas documentais será a tradição oral a fundamentar as teses avançadas”, que o que interessa se diga é que a criação dos “Velhotes da Braguesa” em Valadares se deve à iniciativa trazida em 1880 pelo meu avô, João Gonçalves de Sousa, da sua terra natal, onde algumas padarias artesanais existiam, e que a história relatada nas súmulas atrás referidas, uma das quais lhe foi facultada em tempo, se baseou em factos reais contados por familiares meus e outros por mim presenciados, sem me referir a qualquer documentação escrita, que desconheço, sobre a designação de “Velhotes” e das suas características como doce.
* mais um apontamento do confrade de honra Gil Neves |