***Confraria do Velhote vai estar presente na Expofacic, na Feira Medieval de Santa Maria da Feira e na Feira de Gastronomia de Vila do Conde / VI Capítulo bateu todos os recordes em número de presenças  de confrades e Confrarias /  Alunos do Conservatório Regional de Gaia tocam e encantam no Capítulo***

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Discurso do Chanceler no III Capítulo que define substancialmente alguns
dos objectivos da Confraria
 

* extracto do discurso proferido pelo Chanceler Armindo Costa, no dia do III Capítulo



COMO-OS, LOGO EXISTEM

 

Pede-me a dinâmica freguesia de Valadares, para o Capítulo terceiro da Confraria do Velhote, que possa emitir um parecer sobre este doce cuja defesa e divulgação definem os objectivos que persegue.

Coloca-me na difícil situação de opinar sobre a historicidade do produto que os consagra e que consagram. A escassez do tempo, conjugada com os imensos que fazer limitam-me, para não ser mais radical e dizer que impedem uma investigação documental – que prometo fazer, com ócio e tempo – que o tema e o pedido exigem.

Umas breves considerações pois, traduzindo aqui o onde consegui chegar no escasso tempo que ao assunto dediquei.

A primeira investigação centrei-a nos vários Dicionários que possuo, tentando aí encontrar um sentido de Velhote para além do registo comum dos dicionários de cariz popular que de Velhote dizem: /“Diminutivo de velho; Homem velho, mas bem conservado; velho bem disposto.”/ - Dicionário Editora 3ª Edição; Porto Editora, Porto sem data, pág. 1541.

Nada encontrei nos outros mais conceituados que me desse o sentido procurado. Cândido de Figueiredo regista o /“Homem velho, mas bem disposto”/ e igualmente o /“Homem folgazão”/, entendimentos que se repetem no precioso Grande Dicionário da Língua Portuguesa de J.P. Machado, no histórico Morais e até no recentíssimo e licenciosíssimo Dicionário da Academia.

Uma conclusão a tirar com raiz pelo menos nas obras de J.P. Machado e António Morais: - nenhum escritor clássico (o que não significa antigo, entenda-se) usou a palavra com o sentido de “Bolo ou Doce popular de ??? que eu buscava. Não se me afigura estranho. Os clássicos, para Morais, situam-se no século XIX e J.P. Machado, vai pouco além. De estranhar já é o facto de o Dicionário da Academia, com pouco mais de meia dúzia de anos, nada dizer em abono da nossa pretensão. O caso é que esse Dicionário até regista, licenciosamente, formas que não passam de calão e neologismos estrangeirados e de restrito uso; quase só no basfond lisboeta. Nunca os colaboradores do dicionário deram com a palavra no sentido que buscamos?

No mínimo estranho, insisto.

Outro caminho da investigação que encetei foi procurar a referência e se possível a receita, nos variados livros de Cozinha. Dentre esses livros, o tempo disponível permitiu-me consultar as que tive por de maior referência e mais sólida raiz documental. Infelizmente nada achei, embora tivesse analisado cuidadosamente o receituário do Coronel Bento da Maia (a obra de maior referência no abrir do século XX; o celebrado /OLEBOMA/ de Manuel de Oliveira Belo, obra inquestionável dos anos vinte; o Manual de Cozinha de Manuel Ferreira, com que se enriquece a década de quarenta; o histórico /Pantagruel /de Berta Rosa Limpo, quer na 16ª Edição ainda por ela dirigida, quer na Edição mais recente coordenada por sua filha; /O/ /Tesouro das Cozinheiras/ de Mirene numa edição dos anos cinquenta e em outra muito mais recente; o precioso livro da Cozinha Popular Portuguesa da  Confreira, Maria Odete Cortes Valente e finalmente o cronologicamente anterior, pelo menos na raiz do receituário, que, como se sabe decorre de um Concurso do SNI, creio (sem jurar) que dos finais dos anos quarenta – Cozinha Tradicional Portuguesa da Senhora D. Maria de Lourdes Modesto. Uma vista de olhos lancei, posteriormente a esta primeira selecção, a uma das últimas obras do Chefe Silva – /Doçaria Tradicional Portuguesa.

Nenhuma destas obras faz qualquer referência aos Velhotes.

Parecia pois que este típico doce de Valadares nunca teria existido.

Acontece que não é possível negar a sua existência e já certa antiguidade, havendo mesmo como que um certo historial do doce tradicional, fundado no depoimento oral de um neto do provavelmente primeiro fabricante dos Velhotes. Se é certo que todo o historiador reconhece e se acautela com os testemunhos pessoais, fundados na memória, cuja pouca fiabilidade é sabida, o interessante depoimento existente sobre o tema afigura-se-me um excelente ponto de partida para uma investigação mais profunda e acautelada a partir da realidade existente a qual se define a partir de saberes transmitidos, embora por vezes deturpados ou mal aproveitados.

Na realidade os Velhotes encontram-se ainda à venda em algumas pastelarias de Valadares e da própria Vila Nova de Gaia. É certo que, como bolo, os Velhotes, hoje já não são fabricados como antes, tendo perdido muito da genuinidade que o definia. Outro carácter que o Velhote perdeu, como infelizmente muita coisa da nossa Gastronomia foi o sentido da sazonalidade, já que este doce era vendido antigamente somente nas Festas do Senhor dos Aflitos de Valadares, sendo hoje vendido em muitas lojas que, como disse, não respeitam o saber tradicional, não passando em muitos casos de uma imprópria imitação da doçaria tradicional de que temos notícias desde o início do Século XX ou finais do século XIX, possivelmente de acordo com o interessante trabalho de investigação já referido, por acção de “João Gonçalves de Sousa e de sua Mulher Maria Francisca da Silva, natural de Braga, daí o da “braguesa” como eram conhecidos os Velhotes, cuja confecção enraíza, parece ser legítimo pensar assim, no tradicional “pão doce de Valadares”.

Outro ponto interrogativo é o da designação destes doces. Velhotes, porquê. Não sei responder. Futuro somente. Quiçá – e aqui entra o sentido para o qual os dicionários nos remetem – porque João Gonçalves de Sousa no correr dos anos se tenha mostrado um homem de idade, mas jovial e bonacheirão e os bolos da braguesa sua mulher hajam ganho nome do ser e estar do marido.

Repito que não sei. Sei tão-só que, jogando, de modo decisivo, com o raciocínio descartiano:

 

como-os, logo existem.


Cabe à Confraria arcar com um árduo trabalho de investigação, defesa e difusão desta herança cultural recebida e sobre a qual ganhou Ser e Estar que a obriga a defrontar, de colher de pau na mão, se preciso for, os inimigos do património que herdámos e nos obrigamos a legar, estudado e definido aos que nos sucederem.

 

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